Logo abaixo disponibilizamos um breve resumo do livro 3 contos e cem réis para que você tenha uma idéia do assunto do qual ele trata. Se rolar a página você terá a oportunidade de fazer a leitura online.
4 contos e Cem Réis
Esse livro de contos é mais uma extensão da obra fenomenal de JH Henriques.
São somente 4 deles, conforme dita o título.
Os contos desse autor são magníficos, perfeitos.
Não necessitam de muita averiguação e palavreado.
Tanto é verdade que foi premiado em uma centena de concursos de contos, tempo em que participava desses eventos.
Fragmento de um conto: Eu oficiava de violeiro em casa da Noêmia, um tempo em que ainda se usava dizer que mulher boa é aquela que sabe ficar calada na hora de se fritar os ovos.
Eu aprendi a tocar viola com as coisas da vida, com as lições mais simples que os acordes iam permitindo.
A casa da Noêmia não era das melhores da rua, mas também não era aquela que devesse ser desprezada.
Sua riqueza maior era contar com violeiro permanente.
Eu morava ali nos fundos do lugar.
Se eu ficara violeiro por profissão, devia mesmo ser assim que as coisas tinham que continuar.
Recusava o epônimo de cego porque podia ver luz e vulto.
Até que devia ser interessante porque, pelos meus olhos, segundo me constava em manual de mim mesmo, todas as mulheres acabavam sendo muito semelhadas.
As feias e as bonitas ficavam com sobejo igual.
Depois, eu escutava homem dizer, todas iguais, não mudam nem na cor do esmalte que cobre as sujeiras das unhas.
Todavia, não era assim tão simples conferir as idoneidades da vida, do mundo que estava marchando.
Não quero nem saber se a mula é manca, o que eu quero é rosetar, tinha muita gente que freqüentava a casa da Noêmia e dizia assim.
De tanto escutar isso, acabei por compor risadas quando escutava a frase, ria até que a dentadura fazia um coaxado dentro do céu da boca, contra ele.
Eu aprendi a fazer os ponteios com a graça de um violeiro experiente e nunca tive reclamação dos meus serviços – a não ser quando algum xibungo queria exigir mais que todo o esplendor que o Dick Farney podia dar no seu show de piano.
Sempre tive respaldo porque era caprichoso em atender pedidos.
Meu repertório era graduado demais.
Por isso, as vozes eram contusas, de banda a banda.
Levi, toca aí uma coisa para a gente dançar!
Eu tocava.
Dançavam e depois vinham me agraciar com elogios.
Eu não era cego.
Podia conferir vultos.
Isso me garantiu a presteza de poder separar as louras das morenas e das negras, porque sendo assim, era simples se verificar a gradação da luz.
Quando eram ruivas, uma raridade que jamais aparecia ali, ou se aparecia, não demorava a partir, eu tinha dificuldade com elas porque o vermelho não é cor que deva obedecer a critério de nascimento em qualquer criatura, ainda mais sendo mulher.
Eu fiquei muito conhecido dentro da casa da Noêmia, pelas putas de lá e pelos homens que vinham em busca dela.
A propósito das canções que eu inventava, sobre aquela coisa da mula ser manca, teve um dia, pediram-me que cantasse um verso de especialidade minha.
Eram uns homens de outro estado que passavam por ali, eram mensageiros de dinheiro e de discórdia.
Era uma questão de acender-se o pavio e a confusão estaria formada.
A sorte foi que eles mandaram fechar as portas porque queriam exclusividade.
Queriam pagar por isso.
Qualquer filho de Deus sabe que em puteiro, dinheiro distribuído ou cheirado causa desavença.
Um deles, o que tinha a voz de mais comando no meio daqueles boiadeiros – eu sabia que eram boiadeiros por conta da prosa deles e por conta do cheiro de bosta de vaca seca que vinha das botinas -, ordenou que eu moderasse a voz e cantasse coisa inédita.
Errou na hora de dizer as coisas porque afirmava aos seus pares que todo cego sempre tem uma surpresa para ofertar a gente cansada, como era o caso deles.
A Claudinete, que era a arrumadeira da casa da Noêmia, de vez em quando passava ali e enxugava as gotas escorridas das garrafas de cerveja e os restos que eles derrubavam dos copos.
Estavam felizes os homens porque diziam entre si, ali tinha tudo que queriam, tinha bebida, tinha asseio, tinha o que comer, tinha música e tinha as mulheres.
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