Folhas Caídas (Annotated)

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Folhas Caídas (Annotated)

Almeida Garret

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  • Annotated with author biography.

    "Antes que venha o Inverno e disperse ao vento essas folhas de poesia que por aí caíram, vamos escolher uma ou outra que valha a pena conservar, ainda que não seja senão para memória.


A outros versos chamei eu já as últimas recordações da minha vida poética.

Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim.

Protestos de poetas que sempre estão a dizer adeus ao mundo, e morrem abraçados com o louro - às vezes imaginário, porque ninguém os coroa.


Eu pouco mais tinha de vinte anos quando publiquei certo poema, e jurei que eram os últimos versos que fazia.

Que juramentos!


Se dos meus se rirem, têm razão; mas saibam que eu também primeiro me ri deles.

Poeta na primavera, no estio e no outono da vida, hei-de sê-lo no inverno, se lá chegar, e hei-de sê-lo em tudo.

Mas dantes cuidava que não, e nisso ia o erro.


Os cantos que formam esta pequena colecção pertencem todos a uma época de vida íntima e recolhida que nada tem com as minhas outras colecções.


Essas mais ou menos mostram o poeta que canta diante do público.

Das Folhas Caídas ninguém tal dirá, ou bem pouco entende de estilos e modos de cantar.


Não sei se são bons ou maus estes versos; sei que gosto mais deles do que de nenhuns outros que fizesse.

Porquê?

É impossível dizê-lo, mas é verdade.

E, como nada são por ele nem para ele, é provável que o público sinta bem diversamente do autor.

Que importa?
Apesar de sempre se dizer e escrever há cem mil anos o contrário, parece-me que o melhor e mais recto juiz que pode ter um escritor é ele próprio, quando o não cega o amor-próprio.

Eu sei que tenho os olhos abertos, ao menos agora.


Custa-lhe a uma pessoa, como custava ao Tasso, e ainda sem ser Tasso, a queimar os seus versos, que são seus filhos; mas o sentimento paterno não impede de ver os defeitos das crianças.


Enfim, eu não queimo estes.

Consagrei-os ignoto deo.

E o deus que os inspirou que os aniquile, se quiser: não me julgo com direito de o fazer eu.


Ainda assim, no ignoto deo não imaginem alguma divindade meia velada com cendal transparente, que o devoto está morrendo que lhe caia para que todos a vejam bem clara.

O meu deus desconhecido é realmente aquele misterioso, oculto e não definido sentimento de alma que a leva às aspirações de uma felicidade ideal, o sonho de oiro do poeta.


Imaginação que porventura se não realiza nunca.

E daí, quem sabe?

A culpa é talvez da palavra, que é abstracta de mais.

Saúde, riqueza, miséria, pobreza e ainda coisas mais materiais, como o frio e o calor, não são senão estados comparativos, aproximativos.

Ao infinito não se chega, porque deixava de o ser em se chegando a ele.


Logo o poeta é louco, porque aspira sempre ao impossível.

Não sei.

Essa é uma disputação mais
longa.

,
Mas sei que as presentes Folhas Caídas representam o estado de alma do poeta nas variadas, incertas e vacilantes oscilações do espírito, que, tendendo ao seu fim único, a posse do Ideal, ora pensa tê-lo alcançado, ora estar a ponto de chegar a ele, ora ri amargamente porque reconhece o seu engano, ora se desespera de raiva impotente por sua credulidade vã.


Deixai-o passar, gente do mundo, devotos do poder, da riqueza, do mando, ou da glória.

Ele não entende bem disso, e vós não entendeis nada dele.


Deixai-o passar, porque ele vai onde vós não ides; vai, ainda que zombeis dele, que o calunieis, que o assassineis.

Vai, porque é espírito, e vós sois matéria.


E vós morrereis, ele não.

Ou só morrerá dele aquilo em que se pareceu e se uniu convosco.

E essa falta, que é a mesma de Adão, também será punida com a morte.


Mas não triunfeis, porque a morte não passa do corpo, que é tudo em vós, e nada ou quase nada no poeta.


Janeiro, 1853."

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