Logo abaixo disponibilizamos um breve resumo do livro Diário do Aço para que você tenha uma idéia do assunto do qual ele trata. Se rolar a página você terá a oportunidade de fazer a leitura online.
Um lugar é feito um ser vivo.
Ama, trava combates, engendra e enterra os filhos, acolhe forasteiros, expulsa nativos.
Assim é o Vale do Aço, região incrustada no leste de Minas Gerais, cenário de abandono, paixões, conflitos e projetos de modernidade.
Diário do Aço conta as lembranças vividas pela protagonista/narradora durante o tempo em que morou no Vale do Aço.
Ela então era jovem, solteira e mãe de um menino.
Professora recém-formada, havia sido contratada para ministrar aulas no curso de História de um centro universitário instalado na região.
Dez anos depois, já perto dos quarenta anos e mãe de quatro filhos – quando o Vale do Aço era apenas uma lembrança fugidia – a notícia da morte de Jonas, um professor, seu colega na instituição onde trabalhara e com quem ela havia vivido um breve e intenso romance, desencadeia uma sucessão de recordações, algumas possivelmente acontecidas e outras explicitamente inventadas.
É uma narrativa que busca dar sentido àquilo que a protagonista viveu e também – talvez principalmente – à sua vida presente.
As recordações fazem emergir um lugar cheio de contradições, onde tudo parece pulsar descompassadamente numa transitoriedade maravilhosa e apavorante.
O contraste com a vida presente da narradora – uma vida morna, estagnada e exaustiva – é escancarado.
“Solve – coagula.
Foi no Vale do Aço que aprendi sobre o tarô?
Não sei.
Seja lá como for, era ela, a décima quinta carta, a do diabo, que ditava o compasso daquele lugar.”
O compasso era o de uma ciranda cega, que girava num movimento acelerado, expandindo a roda até ela se arrebentar, arremessando os brincantes no chão e eles, tão logo recobravam os sentidos, juntavam-se novamente num círculo e tornavam a rodar.
Os cirandeiros – professores, artistas, anjos, suicidas, estudantes, drogados, bichas, putas e operários, todos eles forasteiros – integravam-se rapidamente ao ritmo ditado pelas duas usinas que dão nome à região.
Mas, já no início, a narradora alerta sobre um tempo ancestral, o do vale antes do aço, que precedeu as indústrias e os projetos de modernidade ali implantados.
“Para os portugueses recém-chegados aos trópicos não existia Vale do Aço.
Só um conjunto de terras inóspitas, povoado por índios botocudos e mosquitos transmissores de malária, atravessado por um rio.
Sem cercas para estabelecer fronteiras, nem armas para lhe domar a geografia, foi, por muitos anos, um lugar esquecido.
Era o ‘Sertão do Rio Doce’”.
Se houve um tempo que antecedeu o Vale do Aço, chegará a época em que outra coisa irá se suceder a ele?
Possivelmente sim.
“Sempre vai se romper.
Seja de dentro para fora, com bicadas sutis e insistentes; ou de fora para dentro, numa pancada que transforma tudo em estilhaço.
Não tem jeito.
A casca do ovo se quebra, a baleia cospe Jonas que é lançado ao mar aberto, a roda da ciranda se arrebenta.
A usina irrompe feito um vulcão ou, melhor ainda, um tumor, no coração de um vale e expele a fumaça escura e nociva.
Inútil endurecer a casca, refugiar-se nas entranhas, reforçar as barreiras.”
Apesar disso, da inutilidade de se tentar reter o que inevitavelmente será rompido, a protagonista, na forma de um diário que ora corre fluido e linear, ora segue fragmentário e cheio de lacunas, tenta, em sua narrativa, evitar o colapso e cristalizar a experiência.
Diário do Aço, mais que a história de um vale plantado no leste de Minas Gerais que foi desfigurado pela presença de indústrias siderúrgicas, é a história de uma tentativa vã e ao mesmo tempo cheia de sentido: a de construir barreiras que possam deter a passagem do tempo.
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