Logo abaixo disponibilizamos um breve resumo do livro Apoteótico: os maiores carnavais de todos os tempos - 1969 para que você tenha uma idéia do assunto do qual ele trata. Se rolar a página você terá a oportunidade de fazer a leitura online.
“BAHIA DE TODOS OS DEUSES!”, exclamou Fernando Pamplona, o chamado “Pai de Todos”, carnavalesco salgueirense, para Nélson de Andrade, presidente, figura icônica dentro da história da vermelho e branco.
Nélson rebateu: “Pera aí, ô cara!
Dezessete escolas já fizeram a Bahia, inclusive o Salgueiro.
Você não viu o Império no ano passado?
Nenhuma chegou além do terceiro lugar”.
Pamplona, confiante, argumentou: “Nélson, a nossa Bahia é diferente das dezessete”.
A ideia do chamado “Pai de Todos” era ir mais além.
Promover uma segunda revolução no carnaval carioca, dessa vez alterando, de forma radical, a forma de se fazer samba-enredo.
Alguns daqueles que seriam os maiores nomes da história dos desfiles, gênios da folia, davam seus primeiros passos no universo das escolas de samba.
Joãozinho Trinta, levado para o Salgueiro pelas mãos de Pamplona, em 1965, era o responsável por toda a confecção do barracão.
Aquelas que seriam, no futuro, três brilhantes carnavalescas: Lícia Lacerda, Rosa Magalhães e Maria Augusta Rodrigues, alunas de Fernando na Escola Nacional de Belas Artes, já haviam trabalhado com o artista em decorações de carnaval, juntando-se aos trabalhos no barracão salgueirense por convite de Pamplona.
O comando do carnaval salgueirense estava sob a responsabilidade de um jovem, cria do morro, até hoje considerado a maior referência em desfiles de escolas de samba: Laíla.
Quem acompanhava os ensaios, já previra que o samba de Bala e Manuel Rosa não só venceria a disputa daquele ano, como também faria um enorme sucesso no carnaval daquele ano.
“A gente se lasca todo para fazer um samba e, depois, ele chega com aquela caixinha de fósforo, faz o dele e acaba com a gente”.
Silas de Oliveira, o Viga Mestre, maior compositor de sambas-de-enredo da história, em 1968 chegava à quinta vitória consecutiva no Império Serrano, emplacando clássicos do gênero, como “Aquarela brasileira” e “Cinco bailes da história do Rio”.
A letra de “Heróis da Liberdade”, parceria de Silas de Oliveira com outro gênio, Mano Décio da Viola, foi enviada ao SCDP (Serviço de Censura e Diversões Públicas) para avaliação.
A Delegacia de Ordem Pública e Social julgou, como era esperado, o samba “um tanto subversivo”, convocando Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira para explicassem quais eram suas “intenções”.
O tímido ex-soldado n.º 250 do 7.º GAD.
Respondeu então: “Eu não tenho culpa de retratar a história, não fui eu que a escrevi.
Como eu fiz, o senhor poderia ter feito”.
Assim que chegou a Vaz Lobo (bairro vizinho a Madureira e onde se localiza a Serrinha), Silas foi provocado por seus amigos: “Ei, malandro!
Subversivo, hein?”.
O Viga Mestre então respondeu: “Operário não pode ter ideologia!
“. Como se sabe, a palavra “revolução”, contida na letra original, foi alterada para “evolução”, após a intervenção da censura.
Martinho da Viola, que, na época, fazia bastante sucesso Brasil à fora, revolucionou a forma de se compor samba-enredo, com o antológico “Iaiá do Cais Dourado”, considerado pela imprensa e por boa parte da mídia o melhor samba do carnaval de 1969.
Além do sensacional samba-enredo, puxado na Avenida por Elza Soares, a Iemanjá prateada, feita em papier machê, de Arlindo Rodrigues, levantou o público das arquibancadas por sua beleza.
Fios de nylon suspendiam pequenos espelhos circulares, que refletiam os raios do Sol, o que transformou a alegoria em uma verdadeira cascata de luz.
Do alto dos prédios da Presidente Vargas, chovia papel picado para saudar o Salgueiro.
O público começou a gritar, entusiasmado: “Já ganhou!
Já ganhou!
”. O Salgueiro se sagraria campeão do carnaval de 1969, com três pontos de vantagem para a Mangueira, segunda colocada, com 126 pontos.
A bateria, de Mestres Almir Guineto e Gavilan, que não parou de bater um só minuto durante a apuração, rumou em direção à “Quadra Calça Larga”, na Rua Potengi, no Morro do Salgueiro, arrastando atrás uma multidão de pessoas, incluindo foliões e torcedores de várias agremiações.
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