Logo abaixo disponibilizamos um breve resumo do livro ANONYMOUS: Contos e crônicas da cidade que não dorme para que você tenha uma idéia do assunto do qual ele trata. Se rolar a página você terá a oportunidade de fazer a leitura online.
O segundo livro de crônicas de Vana Miletto apresenta uma particularidade: a hibridez.
Anonymous nos traz dramas e alegrias de pessoas que conhecemos, que nos circundam e que bem podiam ser nós mesmos.
Os textos apresentados possuem a ferocidade crítica e reflexiva da crônica, mas a narratividade cria uma ambientação e caracterização pertinentes ao conto.
Nesse sentido, nos posicionamos diante de relatos que não podem ser enquadrados em um único gênero, na medida em que expandem a noção de categorização e engendram por um caminho que não pode ser nomeado.
Isso garante uma condução narrativa fluída, que prende a atenção ao mesmo tempo em que emociona.
Essa maneira leve de conduzir faz com que o leitor se sinta parte das histórias, já que nossa identificação com os homens, mulheres e crianças que aqui desfilam ocorre de imediato.
Esses seres de um universo muito próximo nos levam à alegria, às lágrimas, à reflexão, mas tudo isso de uma forma cativante e natural, pois não se pretende ser crônicas-conto meramente moralistas ou simplesmente cômicas ou ainda puramente trágicas.
Mais do que isso, o que se descortina em cada história é um fragmento da vida comum, do cotidiano de indivíduos simples que em sua simplicidade nos arrebata.
Ao adentrar no mundo de cada um deles, somos agraciados com eventos emocionantes que nos despertam de nossa comodidade.
Assim, no microcosmo de cada existência, há uma plenitude de emoções, de despertar para a consciência, de engrandecimento e de aprendizado.
Os textos que encontramos em Anonymous são lições de vida, mas não no sentido piegas da expressão; em seu sentido amplo: lições para toda vida, lições de uma vida toda.
Isso pode ser percebido logo no início quando já levamos um soco no estômago: o texto de abertura, “Apenas um número”, não é somente uma crítica social, é uma reflexão acerca do nosso descaso frente às ditas minorias, da nossa falta de coragem que não parte para o enfrentamento e prefere se esconder na rotina maçante.
Percebe-se que a autora, a partir de uma situação banal, tece um debate intrínseco da nossa responsabilidade diante das mazelas sociais.
Um morador de rua, uma senhora idosa, vários transeuntes....
Somos todos iguais mesmo?
Temos todos os mesmos direitos?
Se sim, por que isso não acontece?
São perguntas que nos fazemos ao final da leitura e as respostas, mesmo que óbvias, são difíceis de serem ditas e aceitas.
O pedinte que nos aborda também sonha, também sente medo, também precisa de cuidado e afeto; o que passa fome, frio e sede também é nosso irmão, não é mesmo?
Mais adiante, em “Não morreu na contramão, mas congestionou o tráfego”, a referência a Chico Buarque não está apenas no título.
A personagem principal, Dona Áurea, pode ser uma das muitas mulheres que Chico retratou em suas canções, uma senhora de fibra que atravessava a rua com seu passo tímido e temerosa do movimento dos carros.
Na crônica, de maneira bastante informal, vai sendo delineada a figura de uma mulher “exemplo de ser humano” que levava cuidadosamente as crianças do bairro à escola como se escoltasse seus próprios filhos.
Essa mulher adorada por todos, carismática, respeitada e zelosa não carrega apenas os meninos e meninas pela Estrada de Taipas; carrega, entre tantos outros valores, os anseios e planos de cada uma das crianças que cuidou.
Fugindo das grandes ruas por temer o tráfego, Dona Áurea nunca andou pelas avenidas principais, as quais considerava perigosas.
Ironicamente, esses espaços onde jamais circulou são aqueles a lhe renderem homenagens: “as avenidas principais que ela nunca ousou caminhar com todas aquelas crianças, naquele dia parou e assim seu cortejo seguiu de Taipas até Perus”.
As largas e perigosas avenidas de outrora se transformaram em palcos de reverência e carinho a uma mulher que, ao conduzir as crianças pelas ruas afora, estava na verdade conduzindo-as para o aprendizado da vida.
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